Tio de padrasto das crianças abandonadas faz revelações arrepiantes: “Era o diabo em pessoa”

“Na família, toda a gente tinha medo dele.” A frase é do tio de Marc Ballabriga e vem dar novos contornos ao caso das duas crianças encontradas abandonadas numa zona de floresta em Alcácer do Sal. O familiar descreveu um passado marcado por comportamentos difíceis, episódios de violência e sinais que, na sua perspetiva, já eram motivo de preocupação desde a juventude.
Marc Ballabriga, padrasto dos menores, e Marine, mãe das crianças de três e cinco anos, ficaram em prisão preventiva depois de serem presentes ao Tribunal de Setúbal. À chegada ao tribunal, o casal protagonizou momentos que não passaram despercebidos: Marine saiu da carrinha a cantar e Marc gritou “amo-vos” aos jornalistas.
As suspeitas que recaem sobre ambos são graves. O casal terá deixado as crianças sozinhas numa floresta, com os olhos vendados, alegadamente sob o pretexto de que estariam a participar num jogo. Os dois são suspeitos de “colocar em perigo ou abandonar” os menores. Marc é ainda acusado de “ofensas à integridade física agravadas” contra uma das crianças.
O relato do tio, Gilles, ajuda agora a recuar no passado do padrasto. O familiar recordou que os problemas começaram ainda na juventude, depois de Marc ter ido viver com a mãe para junto da família, na região de Aude, em França.
“Na escola era impossível de controlar. E, na adolescência, por volta dos 15 anos, criou-nos problemas enormes. Tornou-se insuportável. Na família, toda a gente tinha medo dele”, afirmou Gilles.
Perante esse comportamento, a família chegou a ver a entrada de Marc na Gendarmaria como uma possível forma de mudança. A expectativa era que a disciplina da força de segurança francesa pudesse impor algum rumo ao jovem. “Pensámos: é o exército, vai ganhar disciplina, podemos respirar de alívio”, recordou o tio.
A aproximação familiar, porém, foi-se perdendo com o passar dos anos. Marc serviu numa unidade de intervenção da Gendarmaria, teve uma companheira e foi pai de uma menina, mas essa relação terminou de forma conturbada. Mais tarde, viria a ser condenado por violência doméstica e ameaças de morte repetidas contra a ex-companheira.
O próprio Marc, nas redes sociais, dizia ter sido “perseguido e assediado” pela Justiça. Também afirmava ter estado “duas vezes na prisão em 2017 e 2020” e ter sido internado “três vezes em hospitais psiquiátricos em 2020, 2021 e 2022”
Em 2021, Gilles voltou a estar com o sobrinho, numa tentativa de reaproximação à família. O encontro, contudo, acabou por reforçar as preocupações. “[Marc] queria reaproximar-se da família e pensámos que podíamos tentar, mas ele dizia coisas completamente delirantes. Falava do fim do mundo”, contou.
Nesse mesmo reencontro, Marc terá colocado as mãos sobre a cabeça do avô e dito: “Estou a dar-te uma aura espiritual, vais viver até aos 200 anos.” O tio recordou ainda que o sobrinho dizia conseguir olhar diretamente para o sol, por acreditar que este não lhe queimava os olhos.
A situação terá acabado em tensão. Gilles contou que a família teve dificuldade em fazê-lo sair de casa e descreveu o momento de forma dura. “Tínhamos dificuldade em fechar a porta. Era forte, violento, completamente louco. Era o diabo em pessoa. Foi a última vez que o vimos”, afirmou.
Nesse dia, Marc terá ainda tentado agredir fisicamente a própria irmã. A família apresentou queixa na Gendarmaria e deixou o alerta de que o considerava perigoso, mas o processo acabou arquivado.
Gilles chegou a admitir a hipótese de Marc se sentir excluído da família, mas acabou por considerar que a revolta do sobrinho era mais ampla. Nas palavras do familiar, Marc “estava zangado com toda a gente, não apenas com os familiares”.







